SOU ESTRANHO | CRÔNICA


 Sempre fui uma criança estranha. Uma pessoa estranha, diria. E sei que a maioria das pessoas à minha volta também acha isso, mas, por educação, dizem: "Ah, mas todo mundo é diferente, né?". E sei que eles sabem que eu sei disso, e agora que estão lendo isso, estão pensando: "É exatamente o que penso".
 A estranheza sempre é causada em pessoas que têm as mentes tão enclausuradas quanto repartições públicas. E, ironicamente, as pessoas que costumam enxergar tais estranhezas são parecidas com os funcionários dessas repartições, que nasceram para gritar: "Próximo!", com a animação de um depressivo, e a inveja de um político que vê uma pessoa que sabe mentir bem. Esses "funcionários" que não são funcionários, mas parecem, sabem que a pessoa estranha pode ser assim com liberdade, diferentemente dela.
 Voltando ao começo, sempre fui estranho logo quando criança, quando não gostava de festas por ter "medo de balões". Quando cresci, percebi que isso era um subterfúgio para eu explicar que não ia em festas porque odiava estar perto de outras pessoas. Odiava pessoas que não odiavam pessoas. E odiava quem odiava as pessoas que odeiam que não odeiem as outras. Um paradoxo se forma.
 Só tem um tipo de pessoa que não odeio: aquela que sabe que é estranha, e, além do mais, estranhamente imutável pelos outros, porque, a diferença entre a minha loucura e a sua maluquice maquiada é que eu, antes de externalizar isso, discuti comigo mesmo numa mesa de bar dentro da minha própria mente para ver se deveria realmente escrever. E foi um consenso, como pode ver.

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